AdegaNegócios

Mitos e verdades sobre os vinhos produzidos no Vale do São Francisco

Por Adega

Com Paula Theotônio/Correio 24 Horas – Desde que seus rótulos começaram a chamar atenção no mercado e nas premiações especializadas pelo mundo, os tintos, brancos e espumantes do Vale do São Francisco vem causando um misto de fascínio e incredulidade entre os apreciadores.

Não é por menos: a região que compreende a produção anual de 4 milhões de litros de vinhos finos está no semiárido brasileiro, em meio à Caatinga. Fica a apenas 8 graus da linha do Equador, enquanto as áreas tradicionais do Velho e Novo Mundo estão para além dos Trópicos de Capricórnio e Câncer.

A média de chuvas é baixa, de 470 mm anuais; e a terra está exposta a mais de 3.100 horas nesse período. E, mesmo assim, as cinco vinícolas em plena produção colhem até duas safras e meia por ano. Como isso se explica?

Os grandes responsáveis por esse paradoxo são o Rio São Francisco, gigante brasileiro que margeia grande parte da região, e a tecnologia da irrigação, importada de Israel e dos Estados Unidos, mais precisamente da Califórnia. A caminho das vinícolas, é comum enxergar dois cenários antagônicos: o da Caatinga intocada, com sua mata branca e cactáceas, e o verde saturado dos vinhedos e demais produtos da fruticultura irrigada.

amanha distinção tem causado, ao longo dos anos, um certo desconhecimento e preconceito com os vinhos da região. “Antes de falar, é preciso que cada pessoa dedique um tempo a viver o Vale, e entender sua singularidade”, recomenda o enólogo português Ricardo Henriques, da Vinícola Rio Sol, localizada em Lagoa Grande, Pernambuco.

O Vale do São Francisco produz três colheitas por ano com características bem diferentes (foto/Euclides Neto/divulgação)

VIDEIRAS ESTRESSADAS

Um dos mitos difundidos sobre o Vale do São Francisco é que seus vinhedos são submetidos a uma produção ininterrupta ao longo de todo o ano, sem pausa entre as safras ou descanso para as videiras. Fato que, segundo especialistas, causaria uma perda na qualidade dos vinhos.

“A verdade é que as videiras do Vale repousam de 60 a 90 dias entre as colheitas, período em que se recuperam para o próximo ciclo. O que nós não temos é um período de hibernação no inverno, comum em países de clima frio. Passar por esse processo não altera a qualidade final do produto”, argumenta Henriques.

Também é dito que, com o sol a pino durante quase todo o ano, os ciclos produtivos nos vinhedos pernambucanos e baianos são muito rápidos – o que também comprometeria o desenvolvimento de alguns compostos importantes para a bebida, que conferem a ela cor, sabor, equilíbrio e longevidade. “Nosso ciclo é de, em média, 130 dias, o mesmo que o de regiões quentes, como Mendoza na Argentina e Alentejo, em Portugal”, compara o enólogo.

 Ainda segundo Henriques, as duas safras e meia do ano por planta não aceleram o envelhecimento dessas videiras. “Aqui na Rio Sol, temos videiras com idades entre 10 e 15 anos e acreditamos que o auge delas ainda está por vir – ainda que já tenham nos presenteado com 20 a 30 colheitas”, comenta o profissional.

VINHOS JOVENS

O campo de uma vinícola do Vale do São Francisco está em plena produção durante todo o ano, com diferentes estágios do ciclo produtivo. Isso dá aos visitantes um vislumbre de quatro estações em uma só propriedade. Porém, devido às alterações no clima ao longo dos meses, as mesmas uvas apresentam características distintas quando colhidas em diferentes épocas.

“Em outros locais, safras possuem diferenças de um ano para o outro. Aqui, as variações são intra-anuais”, alega a engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Semiárido, Patrícia de Souza Leão.

Segundo a especialista, uvas colhidas entre fevereiro e abril tendem a produzir bons vinhos jovens e brancos. De maio a agosto quando as temperaturas ficam mais amenas e há uma amplitude térmica maior, vinhos têm um amadurecimento mais lento e apresentam maior equilíbrio entre acidez e açúcares.

É nessa fase do ano em que as empresas apostam na produção de vinhos de guarda, principalmente tintos. E entre outubro e dezembro, há um tempo bastante ensolarado. De acordo com o enólogo Ricardo Henriques, é um “meio-termo” bastante aromático, excelente para complementar a produção de espumantes.

Nos dias atuais, muitas vinícolas fazem cortes e misturas dessas safras intra-anuais. Pesquisador da Embrapa Uva e Vinho (RS), Giuliano Elias Pereira acredita que, nos próximos anos, as vinícolas podem vir fazer vinhos específicos de cada período.

“É uma região com apenas 30 anos de existência, que só tende a melhorar, conquistando o consumidor com sua tipicidade e singularidade”, aposta.

POUCO USO DEFENSIVOS

Outra inverdade é que produzir vinhos no semiárido requer uma quantidade massiva de agrotóxicos. A verdade é que o uso de defensivos é mais baixo que qualquer região produtora brasileira: cerca de 20% da quantidade aplicada em outros territórios.

Para Ricardo Henriques, o próprio clima da região a torna menos suscetível ao desenvolvimento de doenças e pragas: “Não há ervas competindo pelo solo, não há chuvas, então há menor necessidade de correções, limpezas, tratamentos fitossanitário”, revela.

Já de acordo com Patrícia Coelho, a exigência do mercado internacional, o custo dos defensivos e a evolução das técnicas de manejo no campo fizeram com que as aplicações de químicos fossem diminuindo ao longo dos anos.

“Hoje se faz um manejo integrado, com aplicações de acordo com a presença da praga e quando há condições climáticas desfavoráveis”, explica.

Em Lagoa Grande (PE), a Vinícola Bianchetti aposta em uma produção de vinhos finos orgânicos desde 2004. “Nosso foco é sempre trabalhar a prevenção de pragas, e quando há necessidade, aplicamos produtos naturais. Hoje, há uma ampla cadeia de insumos para produção orgânica”, explica a enóloga da propriedade, Izanete Tedesco.

Em seus três hectares, ela produz rótulos a partir das uvas Barbera e  Tempranillo, e pretende lançar em breve varietais de Petite Syrah, Rubi Cabernet, Sauvignon Blanc e Cabernet Sauvignon.

MAIS SAUDÁVEIS DO BRASIL

Já é de conhecimento geral que uma taça de vinho por dia pode melhorar a saúde cardiovascular. O que nem todos sabem é que essas bebidas, quando produzidas no Vale do São Francisco, têm um acréscimo considerável em seus compostos benéficos ao coração, como resveratrol, flavonóides, antocianinas e procianidinas; além de oligossacarídeos que auxiliam no bom funcionamento do intestino.

Em pesquisas coordenadas pelo pesquisador Giuliano Pereira, nos últimos anos, entendeu-se que isso é resultado de três fatores: altas temperaturas, radiação solar e poucas chuvas. Isso faria com que as uvas produzissem esses antioxidantes como forma de proteção.

Já em estudo de Marcos de Lima, publicado na revista científica britânica Food Chemistry em julho deste ano, a luminosidade e as temperaturas amenas, em determinadas épocas, fazem com que os compostos se concentrem ainda mais na bebida nordestina.

Um exemplo dessas alterações pode ser dado com a Syrah, considerada uma das uvas que melhor se adaptou a terroir da região sanfranciscana.

“Colhida no início do ano, quando a temperatura está quente, vai produzir vinhos com mais álcool e mais taninos, mais jovens e que devem ser bebidos em até 12 meses para obter a excelência do seu sabor. No meio do ano, amadurece lentamente e ganha cor, taninos macios, acidez equilibrada e será mais longevo. No final do ano, a Syrah é ideal para espumantes jovens”, exemplifica o professor do Instituto Federal do Sertão Pernambucano (IF-Sertão) na área de tecnologia de bebidas.

PASSEIOS ENOTURÍSTICOS

Marcas que merecem um olhar mais atencioso  (Foto divulgação)

Na próxima segunda-feira, dia 4, daremos continuidade a essa postagem falando dos agradáveis passeios pelas vinícolas, já tão propagados e procurados, ver como as empresas estão organizando a volta das visitas após a autorização do governo.

Ainda, os lançamentos para este anoa tão confuso e dicas de algumas marcas que merecem uma atenção especial para quem aprecia um bom vinho feito numa região fincada em pleno semiárido nordestino, mas com um mercado promissor e bastante saboroso.

 

 

 

 

 

 

Portal Tribunna

A ADEGA é publicada toda segunda-feira aqui em nosso portal

 

 

Tags

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar